Archive for the ‘cultura’ Category

Balada para os Poetas Andaluzes de Hoje

June 22, 2011

Antologia Poética de Rafael Alberti  foi um dos primeiros livros que comprei na feira do livro. A recomendação veio de minha mãe – “Conheces? É o autor do poema dos poetas Andaluzes”. O poema, esse sim, conhecia através da música (com o mesmo nome) dos Aguaviva, mas como não conhecia Rafael Alberti, este fácilmente me teria passado despercebido entre tantos livros.

O grupo espanhol de Rock progressivo (classificação não unânime), Aguaviva, dedica então parte do seu album “Poetas andaluces de ahora” a este poema. Além de Rafael Alberti, outros poetas espanhóis vêm os seus interpretados por esta banda, cujas canções passaram pela censura do regimo de Franco.

Balada Para Os Poetas Andaluzes De Hoje

 

Que cantam os poetas andaluzes de agora?

Que olham os poetas andaluzes de agora?

Que sentem os poetas andaluzes de agora?

 

Cantam com voz de homem, mas onde estão os homens?

Com olhos de homem olham, mas onde estão os homens?

Com peito de homem sentem, mas onde estão os homens?

 

Cantam, e quando cantam parece que estão sós.

Olham, e quando olham parece que estão sós.

Sentem, e quando sentem parece que estão sós.

 

Será que a Andaluzia já não tem ninguém?

Que nos montes andaluzes já não há ninguém?

Que nos mares e campos andaluzes não há ninguém?

 

Já não haverá quem responda à voz do poeta?

Quem olhe o coração sem muros do poeta?

Tantas coisas morreram, que só resta o poeta?

 

Cantai alto. Ouvireis que outros ouvidos ouvem.

Olhai alto. Vereis que outros olhos olham.

Pulsai alto. Sabereis que outro sangue palpita.

 

Não é mais fundo o poeta em seu escuro subsolo encerrado.

O seu canto ascende ao mais profundo quando, solto no ar, já pertence a todos os homens.

 

Le cygne (o cisne)

November 14, 2010

Dois pianos e um violoncelo : são tudo que o movimento mais célebre da suite  Le carnaval des animaux ( O carnival dos animais) precisa para descrever românticamente  a imagem de um cisne, descendo elegantemente pelas águas . Esta peça do compositor francês Camille Saint-Saëns nasceu quando este passava férias numa pequena vila Austriaca. À excepção do cisne, nenhum dos outros 13 movimentos foi publicado enquanto Saint-Saëns foi vivo, por recear que lhe pudessem arruinar a reputação …

[apesar de ser uma criança prodígio – começou a escrever as suas peças com 3 anos e meio! – teve dificuldade em impor as suas primeiras obras por ser visto como um revolucionário. Valeu-lho o apoio do seu amigo Liszt que lhe permitiu apresentar a sua obra-prima lírica Sansão e Dalila. Depois da morte dos seus filhos e da posterior separação da mulher, levou uma vida errante preenchida de ceptcismo. Foi no entanto nos anos 80 que escreveu as suas maiores obras primas – de Henrique VIII ao Carnaval dos Animais] – in Guia Fnac Música Clássica

No início do século 20, o ballet  The Dying Swan foi coreagrafado ao som deste mesmo Cygne e surgiu como pièce d’occasion para a bailarina Anna Pavlova. E por sua vez, este grande ícone do bailado russo serviu ainda para inspirar o doce com o mesmo nome. E uma vez que o Natal está à porta, deixem-me perguntar : quantos de vós conhecem o doce Pavlova?  Acredita-se que foi criado em honra da bailarina e é normalmente servido por altura do Natal. Sendo maioritáriamente constituído por claras (o que é óptimo para gastar as claras depois de fazer um pastel de nata ou qualquer doce alentejano) e a sua cor predominante o branco, é normalmente acompanhado de frutos vermelhos da época. Experimentem usar amoras,morangos ou até mesmo romã ! Existem diversas variantes da receita, mas um dia destes deixo aqui no blog a receita lá de casa ^_^.

November 7, 2010

Muita gente defende que a rádio morreu. Certamente que esta é uma opinião contestável; é verdade que hoje não dependemos da rádio para ouvir as músicas de que gostamos. Mas não será essa uma limitação nossa? Uma crescente incapacidade de contactar com coisas novas? De que nos serve ter uma internet a abrir-nos a janela para o mundo, se os nossos olhos se recusam a passar do parapeito e olhar para além do horizonte?

E por isso continuo a defender a existência de boa rádio. Sim, porque nem tudo é preto nem branco. Nomeadamente, a antena1 ainda me consegue cativar com alguns dos seus programas. Entre eles encontra-se o RETRATOS DA REPÚBLICA ; Evito-me de descrever o programa porque a sua qualidade fala por sí – Experimentem ouvir!

No programa de hoje recordei  Almada Negreiros e o seu célebre Manifesto Anti-Dantas – onde este defendeu a necessidade de mudar as mentalidades e a sociedade (necessidade que aínda persiste…) . Hoje os Dantas são outros e amanhã outros lhes tomarão os lugares; e porque esta constante labuta é normalmente esquecida em tempos de crise(económico-moral) – nunca passamos da cêpa torta – diria que é uma pescadinha de rabo na boca …

E agora, porque hoje é domingo  –  e porque sou um amante da poesia (um modesto amante, tenho que admitir …) –  não posso deixar de partilhar mais um outro poema (este também declamado por Mário Viegas ; para uma próxima vez João Villaret,Ary dos Santos – e outros ), e porque hoje é domingo…

November 7, 2010

 

” A força dos povos está na cultura ”

 

Sempre achei todo o mediatismo e atenção dada ao facebook algo artificial; sempre olhei para ele como algo banal e insípido – incapaz de justificar tanta atenção, por tanto tempo e tantas pessoas. Era como se se houvesse tornado a “nova televisão”, nova geração de fontes de entorpecimento e apatia . Ao controlarmos permanente a vida dos outros, conseguimos fugir um pouco às atrocidades que nos acontecem a todos nós – perdendo pouco a pouco a empatia que nos resta  ; assim pensei.

Mas felizmente, o mundo não é ou preto ou branco. Também o facebook tem as suas coisas boas, nomeadamente o Acontece, de Carlos Pinto Coelho. O Acontece, antigo programa da RTP2 ,foi “sacrificado” em prol de estabilidade financeira dos cofres públicos. A economia continua, como se vê, extremamente saudável – e a cultura portuguesa ficou irremediávelmente mais pobre. Infelizmente, este não é um país que valoriza muito a sua cultura – razão pela qual estaremos sempre prostrados perante outras nações, incomparávelmente mais desenvolvidas. Podemos ser ricos, mas a riqueza vai e vem – e só a riqueza interior é que nos permite subsistir às crises (afinal, o conhecimento é a derradeira arma de qualquer guerra).

Carlos Pinto Coelho, subsistiu. Lutando contra todas as adversidades continua ainda hoje a praticar esse supremo acto de humanidade – a partilha da cultura. Por isso, a todos convido a acompanharem o seu trabalho. Na sua página do facebook , podem encontrar a lista das emissoras. Infelizmente, ainda era bastante novo quando o Acontece foi cancelado. E por isso não posso dizer quanto me alegra ver este projecto continuado…